Cultura No Feminino

Hoje é o dia das flores, dos mimos, do jantar por conta de alguém. É o dia dos festejos, dos obrigados, dos reconhecimentos. Hoje é o dia do “Feliz dia das Mulheres” e dos dois beijinhos, das serenatas à janela e de tantas outras coisas.

Sim hoje é este dia, como deviam ser todos!

Mas mais que isso, HOJE é o dia de perceber porque é tão necessário este dia estar presente no calendário:

Nos primórdios da Grécia Antiga, as mulheres não eram aceites em eventos sociais, nem sequer eram consideradas membros da sociedade. Com alguns movimentos europeus, durante o séc. XVII começaram a ganhar presença na cultura, no entanto, o panorama não ficou muito diferente. Das duas uma: ou utilizavam um heterónimo masculino para poderem ser publicadas, ou eram acusadas de serem “mulheres da vida”.

O contexto português para além desta bagagem histórica, acrescenta os anos de ditadura, onde o ideal da mulher passava por fazer um bom contrato nupcial que lhe garantisse o sustento da família. Tudo isto resultou num atraso profundo da evolução da sociedade portuguesa e por consequência da cultura.

Durante todos estes anos falou-se de mulheres, escreveram-se papéis femininos, grandes romances de amor eterno com damas em apuros … no entanto, poucos foram escritos verdadeiramente por mulheres e praticamente nenhum foi representado por elas. A história que nos chega à atualidade é maioritariamente escrita por homens, não traduz nem representa o verdadeiro percurso feminino.

Por esta razão quis-vos trazer algumas iniciativas, projetos e nomes contemporâneos portugueses que tenho como referência e que pretendem privilegiar o papel feminino na cultura:

Escola de Mulheres

Esta companhia foi fundada pela Fernanda Lapa em conjunto com outras mulheres que pretendiam ter uma voz ativa no teatro português. Tive a oportunidade de conversar com a Marta Lapa e com o Ruy Malheiro, diretores artísticos da companhia, que me explicaram um pouco a importância do projeto.

Desde o seu início a Escola de Mulheres adotou uma postura de privilegiar o papel feminino em todas as suas vertentes. Desde apresentar textos com dramaturgia e encenação femininas, até à escolha de profissionais (mulheres) de luz e som para colaborarem nas apresentações, no entanto, não houve um único projeto que fosse representado totalmente no feminino, há sempre um olhar masculino na construção das peças teatrais isto porque, como os próprios afirmam, este espaço não pretende excluir os homens nem ser extremista, mas promover a igualdade no panorama teatral nacional.

Na nossa conversa Marta Lapa comentou que gostaria, ainda em vida, de experienciar uma sociedade que não precisasse de um projeto como a Escola de Mulheres para equilibrar a presença feminina no teatro português, mas que não acredita que isso vá acontecer.

Clara Não

Não poderia escrever esta publicação sem mencionar esta mulher.

Ilustradora, ativista e cronista, Clara Não é um nome incontornável do feminismo contemporâneo no nosso país e ainda bem que assim é.

Escreve e ilustra sem tabus. O que a torna única, empática e humana é inspirar-se em experiências pessoais para abordar os seus temas, como dizia uma professora minha de teatro:

“Quanto mais particular somos, mais gerais nos tornamos”

Sofia de Portugal

Para mim, esta é a frase que melhor define o seu trabalho.

Book Gang

Adoro este projeto, foi através dele que conheci várias autoras portuguesas contemporâneas e muitas das novidades da literatura internacional.

Fundada pela autora e ativista literária Helena Magalhães, o Book Gang tornou-se uma referência para a literatura no feminino. Através de uma curadoria moderna, que aposta em novas vozes femininas, e das suas boxes mensais torna-se mais fácil ter em casa as novidades mais apetecíveis!

Iniciativa Editora Penguin:

Só para terminar, a Penguin fez uma edição especial “Em Nome da Mulher” onde apresentou capas de livros com os apelidos maternos dos autores. Uma mudança tão simples, mas que nos faz refletir tanto sobre convenções que são intrínsecas à nossa sociedade.

Esta iniciativa foi pensada concretamente para o dia de hoje, mas não podia deixar de partilhar com vocês porque a considerei original e arrojada.

Se conhecerem mais projetos que privilegiem a presença feminina na nossa sociedade ou quiserem referir outras mulheres que são inspiradoras para vocês, partilhem connosco nos comentários.

Até ao próximo momento de

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