Tenho a sensação de que há livros que nos encontram, que vêm ter connosco sem estarmos à espera, que têm no seu destino o propósito de nos marcar e ensinar.
Não quero contar-vos muito sobre esta história. Não há palavras, por mais perfeitas que sejam, que mereçam estar entre vocês e a leitura deste livro. Gostaria apenas de referir que é um relato autobiográfico, que nada do que é referido aqui poderia sair da imaginação ou presunção de alguém. Não há como Annie Ernaux ter escrito O Acontecimento apenas do imaginário coletivo das emoções: desespero, medo e dor. Realmente teve de passar por tudo para conseguir de uma forma tão simples transmitir-nos o que ela, assim como tantas outras mulheres, passaram numa altura onde o aborto era ilegal, mas ter um filho, por vezes, era mais desprezível que transgredir a lei.
Por mais que tenhamos conhecimento da existência do aborto clandestino, não há relato mais sincero, cru e humano que este, realizado na primeira pessoa com auxílio a notas escritas na altura e a reflexões presentes (do momento em que escrevia o livro – 1999). A autora faz-nos pensar no aborto e na figura feminina de outra perspetiva, as descrições do seu corpo e da forma como a sua visão do mundo se vão alterando à medida que as coisas sucedem, são das mais belas.
“Percebi que perdera, durante a noite, o corpo que tinha desde a adolescência, com o sexo vivo e secreto, que acolhera o do homem sem por ele ser modificado – devolvido mais vivo e ainda mais secreto.”
O Acontecimento
Tenho 23 anos neste momento e não sei se teria a coragem, força e determinação desta jovem. Os tempos são outros, ainda bem, mas a idade é a mesma e pensar que tantas jovens passaram por isto sozinhas, desamparadas a serem julgadas por todos e, pior, desajudadas por todos, só coloca as leis acima da humanidade, da bondade, da empatia, e de tantos outros valores…
“E, como sempre, seria impossível determinar se o aborto era proibido porque estava errado, ou se estava errado porque era proibido. Julgava-se em conformidade com a lei, não se julgava a lei.”
O Acontecimento
Percebo porque é que esta mulher foi Prémio Nobel da Literatura 2022 e tenho a certeza que este vai ser um livro que vou levar para a vida, estou curiosa para ler mais obras desta autora.
O livro é muito fácil de ler e pequenino, tem 87 páginas, por isso mesmo que não tenham o hábito da leitura recomendo que peguem neste livro, para além de ser literatura é um relato histórico.
Como às vezes menos é mais o que eu quero dizer com esta pequena publicação é simplesmente: Leiam este livro!!!
Até ao próximo momento de


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