Cheguei a Coimbra na semana passada e deparei-me com uma estátua e com milhares de portugueses “críticos de arte” espalhados pela rua.
“Eu gosto muito de arte, mas isto não é nada!” disse uma senhora, aos seus familiares ou amigos, enquanto passavam pela estátua indignados. Questionei-me se ela conseguiria responder à “simples” pergunta: O que é arte? Talvez ela tivesse uma definição muito concreta sobre os limites a arte, que eu, enquanto estudante, não conheço e sinceramente tenho medo de conhecer.
A arte em Portugal (e talvez no mundo) ainda é bastante elitista, o que é exposto dentro de quatro paredes brancas nunca é questionado, porque se assume que se é aceite pela academia (neste caso museus) é porque é “boa arte”, mais uma questão que devemos refletir… O que é boa arte?
Eu acredito que para aquela escultura incomodar tanta gente é porque, das duas uma: os portugueses não têm muito contacto com arte, especialmente arte contemporânea ou têm uma imagem muito concreta de D. Afonso Henriques, o que se torna muito interessante, visto que o primeiro rei de Portugal é uma figura do séc. XII e não há dois retratos exatamente iguais.
Depois de ter refletido sobre este assunto, apercebi-me que esta indignação talvez venha de uma comparação irracional desta estátua contemporânea, com a que está em Guimarães, produzida pelo incrível Soares dos Reis, um artista e escultor da vanguarda naturalista e realista, do século XIX. Duas artes diferentes, com objetivos distintos e vanguardas desencontradas.


Antes de opinar, fui pesquisar sobre esta obra, de forma a conhecê-la melhor: qual o objetivo da escultura, o que representava, de que materiais era feita e quem era o artista. Toda esta informação é importante para compreendermos melhor a arte que observamos e o que ela nos quer transmitir, ferramentas essenciais para nos tornarmos mais conscientes no universo artístico. É um conselho que vos deixo, pesquisem para opinarem de forma mais informada, talvez se deparem com informações que vos surpreendam e vos façam ler a obra de forma diferente.
Não digo que precisam de gostar da escultura, mas dizer que não é arte é bastante arrogante e duvidoso. O que é arte? É apenas o que vocês gostam? O que está dentro dos museus? O que está nos livros de história da arte?
Para vos contextualizar um bocadinho, esta escultura foi realizada pelo artista português Dinis Ribeiro e pelo arquiteto Abel Cardoso e todas as escolhas que os artistas fizeram neste projeto têm um significado:
A utilização do mármore lioz assume uma ligação artística à estátua de D. Afonso Henriques, de Soares dos Reis, colocada em Guimarães em 20 de outubro de 1887, cujo pedestal foi construído justamente em mármore lioz. O betão armado como terceiro elemento simboliza a contemporaneidade da obra de arte como a vida e obra do rei homenageado. Como referência de tradição das estátuas, o plinto volta também a ser concebido por um arquiteto, neste caso, o vimaranense Abel Cardoso, seguindo a linha de continuidade da tradição estatuária.
Câmara Municipal de Coimbra
Representa o rei na puberdade, altura em que se tornou cavaleiro. Por esse motivo o artista optou por colocar granito preto do Alentejo no cabelo do rei, para representar essa juventude.
Para além do granito preto as distintas pedras têm
um sentido geográfico que começam do norte e terminam no sul. O pedestal tem como base o granito azul de São Torcato –uma referência clara ao Martírio de São Torcato, Santo Mártir cuja devoção nortenha é muito expressiva.
Câmara Municipal de Coimbra
Por fim, achei bastante interessante a abordagem do percurso que obra vai realizar. O itinerário desta escultura recria o que o próprio rei percorreu, nasceu em Guimarães, passou por Coimbra (onde estabeleceu a sua corte durante a conquista territorial do país) e por fim Zamora, onde se tornou cavaleiro em 1125.
Espero que todos estes significados e curiosidades vos dêem outra perspetiva, que possam observar esta escultura com uma mente mais aberta e recetiva ao que a arte vos pode oferecer e à história que ela conta.
Por fim a minha opinião: admirei as escolhas dos materiais e dos seus significados, considero de uma delicadeza e de um respeito enorme por parte dos artistas terem conseguido, numa só escultura, resumir tanta informação sobre a vida e conquistas do primeiro rei nacional.
Até ao próximo momento de,
Webgrafia:
- https://www.coimbra.pt/2023/04/nova-escultura-de-d-afonso-henriques-apresentada-em-coimbra
- http://dinisribeiroescultor.pt/
Fontes de Imagem:


Deixe um comentário