Sou demasiado nova e demasiado velha ao mesmo tempo para começar a aprender…

Não podia começar de outra forma, considero que a frase do título traduz um medo, quase generalizado, do ser humano. Não há como ser jovem e não ter estes receios quando não temos certezas sobre o nosso futuro, quando desistimos dos nossos sonhos por algo mais “seguro”, ou pelo caminho mais frequente. Mas quando envelhecemos, também metemos na cabeça que já passou o nosso momento de seguir sonhos, como se já tivéssemos deixado de viver, estamos simplesmente à espera de desaparecer da terra.

Sou nova, mas serei velha ao mesmo tempo para começar? Para arriscar?

Sinto que durante toda a vida construímos uma ideia romantizada de que chegaríamos aos 20’s e a nossa vida estaria bem traçada, bem encaminhada. Emprego estável, financeiramente independentes e tudo isto porque seguimos o caminho tradicional: licenciatura, mestrado, trabalho… Durante o nosso crescimento vamos percebendo que não é tudo preto no branco, que temos várias coisas de que gostamos e não há mal nisso. Talvez tenhamos medo de nos “casar” com uma profissão para a qual não estamos preparados para o: “até que a morte nos separe”.

Esta frase não é minha, é da série “Emília”, argumento e realização de Filipa Amaro que está na RTP Play. Que trabalho incrível!

Recomendo que assistiam a este projeto, sinto que nos coloca tantas questões e que nos leva a refletir sobre nós próprios enquanto pessoas. Talvez nos faça reconhecer medos a que estamos habituados a conviver diariamente, mas que adiamos enfrentar:

O querer tudo para ontem, as comparações constantes a que estamos sujeitos pelas redes sociais (que na maioria das vezes não refletem cenários reais), o acomodarmo-nos à ideia de que algo não é para nós, ou está demasiado longínquo para tentarmos sequer, e talvez seja melhor aceitar isso.

Esta série cria uma empatia enorme com o público, por vezes sentimos que somos nós naquele papel de Emília, em busca pelo seu sonho. É muito bom quando nos relacionamos tanto com a arte que parece que somos nós os representados, que a nossa história está num bocadinho daquelas palavras.

Nesta série Filipa Amaro, tenta chamar a atenção não só do público português que já não tem “fome de sentir” e que raramente paga para ir ver um espetáculo, mas também de quem está no poder, da forma como a cultura vive de financiamentos, que por vezes obrigam a arte a seguir certos temas, mesmo que estes não fossem a ideia principal, só para terem mais chances de serem concretizados.

O casting de atores está muito bem feito, não conhecia o trabalho da Beatriz Maia mas simplesmente adorei e o elenco no geral está de parabéns.

Gostava também de referir que as imagens de cena são lindíssimas, os cenários de praia têm uma luz e um ambiente que seduz, parecem quadros em movimento.

“O que nós fazemos aqui deve apenas parecer ser fácil, leve. E dá muito trabalho ser leve.”

Emília

Quantas vezes não dizemos que a nossa vida é um mau filme? E quantas vezes fazemos realmente alguma coisa para mudar o seu rumo?

Porquê? Consideram-se novos e ao mesmo tempo velhos para investirem em vocês?

Assistam ao primeiro episódio aqui:

https://www.rtp.pt/play/p11652/e687093/emilia

Até ao próximo momento de

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