Dificuldade em afirmar “Não gostei!”

Porque é que se torna tão difícil dizer que não gostámos de alguma coisa? Talvez por termos medo de desvalorizar o trabalho de alguém e colocamos na cabeça que nós é que não percebemos o espetáculo, que não temos capacidade para entender a “complexidade” da arte …

Enquanto público o nosso olhar e a nossa opinião é importante, se não houver audiência, não haverá espetáculo. Então devíamos afirmar mais vezes que não gostámos e fomentar a nossa opinião, não como forma de enxovalhar ou desvalorizar, mas como critica construtiva para que haja mais gente a consumir cultura e para que esta deixe de ser elitista.

Refleti sobre este tema porque fui ver “A Morte do Corvo” este fim de semana, uma peça de teatro imersiva onde o público segue as várias personagens e explora o cenário com uma liberdade que não lhe é concedida numa peça de teatro comum. Depois de ter ouvido muitos elogios ao espetáculo, eu tenho a dizer que não gostei e que não voltaria a ver esta peça.

Atualmente os espetáculos imersivos, seja teatro, exposições (…), estão na moda, mas têm de ser bons (não é apenas por ser imersivo que está bem feito), têm de captar a essência do que estão a apresentar. Não me faz sentido ir a uma peça de teatro e não ter um fio condutor da história, porque teatro, assim como cinema, literatura e outras artes, têm como objetivo contar-nos uma narrativa (mesmo que não seja linear), o imersivo apenas faz com que o público se sinta dentro dessa narrativa. É esta a diferença.

Já vi peças de teatro deste género e ,por norma, o público consegue escolher uma personagem para seguir do início ao fim da história e ter uma perspetiva clara do que aconteceu com a personagem que escolhemos. Isso faz com que, enquanto espectador, queira voltar para ver outras perspetivas e ter um culminar de situações que me permitam construir toda a narrativa. Ao contrário de “A Morte do Corvo”, onde não consegui acompanhar na totalidade o percurso de nenhum personagem, logo é como se a meio do caminho me tirassem o tapete e ficasse perdida no espaço à procura de outra personagem para seguir.

A dada altura senti-me num meio de um acidente à procura do foco da desgraça. Sabem aquela sensação quando há um acidente e toda a gente fica a ver o que aconteceu, quase uma curiosidade irracional, esta peça promove isso, o que faz com que vejas indivíduos do público onde a curiosidade ganha ao sentido de noção. E talvez ao contrário de outras pessoas, isso não me deixa com curiosidade de voltar, porque ao comprar o bilhete quero perceber alguma coisa, ter o início, meio e fim pelo menos de um personagem, não quero que me preguem partidas e me façam ir à procura de alguém só porque a minha personagem entrou numa passagem que não é permitida ao público. Ah para não falar que a peça repete, segundo nos dizem para permitir que sigas mais personagens, algo que não me agradou particularmente.

Tirando estas questões de encenação e logística, gostei muito do trabalho de foco dos atores, estando rodeados por imensa gente, nunca desviaram o seu olhar do objetivo, isso coloca o público no lugar de um ser invisível, foi interessante. Agradou-me a construção dos cenários e do ambiente envolvente, assim como algumas imagens cénicas construídas pelos atores.

Fotografias retiradas do site https://www.amortedocorvo.com/galeria.

É uma peça muda, o que acresce a dificuldade de contarem uma história sem o apoio de palavras, mas considero que foram bem-sucedidos nas emoções e na gestualidade.

Recomendo sempre que vejam, não só porque o que escrevi é uma opinião pessoal, mas porque consumir cultura é sempre vantajoso mesmo quando não vos agrada. No fim refletiam sobre o que gostaram ou não e talvez vos ajude a perceber o que vos chama a atenção numa peça de teatro ou enquanto consumidores de arte no geral. Isso pode facilitar as vossas escolhas futuras e permitir que se conheçam melhor enquanto pessoas.

Eu nunca me arrependo de ir ver um espetáculo, fico sempre a conhecer-me um pouco melhor e ajuda-me a desenvolver o meu sentido critico, o que me permite ir à procura de soluções para os problemas que encontrei.

Se já viram a peça deixem-me a vossa opinião nos comentários.

Até ao próximo momento de

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