E se entrasses no museu, para observar apenas uma obra de arte…

Vivemos num mundo acelerado, somos constantemente bombardeados com informação e quase nunca estamos no momento presente. Encontramo-nos sempre entre a luta do passado e a adivinhação do futuro. Não nos permitimos ter tempo para ver, observar, sentir e por vezes estabelecer relações entre a imaginação e a realidade.

Quando “O Nervo Ótico” de María Gainza me foi emprestado para ler, percebi que muitas vezes não nos permitimos ter tempo para empatizar com obras de arte, para, sem expectativas, entrarmos numa sala e permitirmos que a arte nos escolha, pararmos a azáfama dos nossos dias para a absorvermos. Muitas vezes os museus estão atolados de informação, assim como o nosso dia a dia, e acabamos por percorrê-los com o objetivo de ver cada obra, sem nos apercebermos que não vemos verdadeiramente nenhuma.

Tive um professor na licenciatura que logo nas primeiras aulas nos questionava o porquê de existirem bancos dentro dos museus, pergunta interessante para quem nunca refletiu sobre isso. E não, não é para descansar as pernas depois de uma longa caminhada entre corredores cheios de obras de arte. Pelo contrário, é para ativarmos a visão, criarmos um distanciamento e observarmos a arte de várias perspetivas ganhando tempo para a absorvermos e espaço para a vermos completa, para a compreendermos, para a lermos. Não com o sentido de verdade empírica, porque provavelmente não vamos conhecer o artista pessoalmente e não teremos oportunidade de lhe perguntar a história ou a emoção por detrás daquela obra, mas para termos a nossa verdade, a nossa história, as nossas emoções e para criar um sentido crítico sobre o que estamos a ver.

” – Não deviam ser boas obras de arte.

-Bom, mau? – considerou Matías. – Que tipo de avaliação é essa? Quando muito, diz-se gosto disto, daquilo não.”

María Gainza – O Nervo Ótico

Este livro faz-me lembrar aquele jogo de quando somos crianças e nos deitamos de barriga para cima a tentar adivinhar os formatos das nuvens. Maria Gainza fala-nos de arte, da história de artistas famosos, mas mais importante que isso fala-nos da sua arte, de como aquelas obras ressoaram dentro dela e as histórias que a arte a ajudou a construir, como aquelas nuvens com figuras de animais.

“Eis o retrato que pintou Schiavoni, aquele que estou convencida de que é o meu retrato: a jovem da cadeira com o olhar fixo, o chapéu de domingo na cabeça, o vestido de um lilás esmaecido, o casaco dois tamanhos acima do seu. Compensa a aparente ignorância em assuntos mundanos com atitude: o seu olhar pode transformar-se a qualquer momento em chuva radioativa e os seus lábios estão tão hermeticamente selados que ao abri-los se ouviria o ruído do velcro.”

O Nervo Ótico – Ser uma Assombração

Quanto tempo já se permitiram estar com a mesma obra de arte, ao ponto de se aperceberem que o casaco pode não ser o adequado às proporções de quem o veste?

María Gainza tem o poder de trazer leveza ao olhar sobre a arte, por vezes somos tão exigentes, colocamos o mundo artístico num pedestal e não nos permitimos sentir, brincar, imaginar os mundos que aqueles objetos estão a construir para nós. Mundos que já existiram e que fazem parte da história ou que são puramente imaginados por alguém. Não estamos a ajudar a arte a ser arte e não nos estamos a permitir ser artistas e contruir uma realidade com a ajuda de quem a criou.

Se pensarmos bem a literatura abre espaço para sermos os nossos próprios cenógrafos, designers, realizadores, porquê impormos barreiras às artes visuais? Porque não podemos entrar num museu, parar em frente a uma pintura e preencher os seus espaços vazios com a nossa dramaturgia, as nossas palavras, os nossos mundos e aventuras. Criar histórias em cima do que vemos vai-nos aproximar da arte, vai permitir que nos liguemos a ela e de alguma forma vamos conseguir pôr o nosso cunho pessoal naquele objeto.

“O único público de que gosto nos museus são as crianças da escola primária. Embora seja um gosto agridoce porque, mal os sentam em semicírculo no chão gelado da sala e uma professora começa a explicar-lhes a paleta em Velázquez, as suas carinhas ficam de um verde-azulado e as orelhas abrem-se como poços escuros. «Parem com isso!» tenho vontade de gritar. Mal administrada, a história da arte pode ser letal como a estricnina.”

María Gainza – O Nervo Ótico

Este livro é único, a escrita da autora é distinta e a forma como conta histórias é apaixonante. A leitura é diferente de tudo o que já li, mas considero que nos adaptamos facilmente, ajuda o facto da autora dividir este livro em short stories, onde cada capítulo é uma memória.

Uma mistura de história da arte, realidade e ficção, este livro é uma obra de arte em si mesmo. Se gostarem de visitar museus, conhecer artistas e mergulhar em histórias com personagens reais este livro é o certo! E se não conhecerem algum artista ou obra de arte façam uma pausa na leitura e vão pesquisar, todas as referências a artistas e a espaços expositivos são verdadeiras e vale muito a pena conhecer.

María Gainza nasceu em Buenos Aires, na Argentina, onde foi correspondente do The New York Times e da ArtNews. Por mais de dez anos colaborou regularmente com a revista Artforum e o suplemento Radar do jornal diário Página/12. Orientou cursos para artistas e ateliers de crítica de arte, e foi coeditora da coleção Los Sentidos sobre pintura argentina. Em 2011 publicou Textos Elegidos, uma seleção das suas notas e ensaios sobre a arte do seu país. O Nervo Ótico, publicado em Portugal pelas Publicações Dom Quixote, é o seu primeiro livro de ficção e recebeu o aplauso internacional da crítica.

Até ao próximo momento de

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